Internacional
04 Maio de 2021 | 10h41

Médico explica: Viver com SIDA no séc. XXI ainda é uma sentença de morte?

Estima-se que em Portugal existam aproximadamente 61.433 casos de infeção por VIH, dos quais 22.835 atingiram o estádio de SIDA - casos esses contabilizados entre 1983 e 2019. Sendo que no mesmo espaço temporal, foram registados 15.213 óbitos resultantes desta doença epidémica, que ainda está envolta em mitos infundados e em muita desinformação.

Em entrevista ao Lifestyle ao Minuto, a médica Mafalda Guimarães, especialista em medicina interna no Hospital de Cascais, fala sobre a doença que terá surgido no continente africano no começo do século XX, mas que somente na década de 1980 passou a ser conhecida e temida em todo o mundo. Atualmente, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que aproximadamente 38 milhões de pessoas vivam com VIH.

Porém, se há apenas algumas décadas um diagnóstico de SIDA era praticamente sinónimo de receber uma sentença de morte, na atualidade é possível viver com a condição e levar uma vida relativamente normal. Havendo inclusive a possibilidade de pais infetados gerarem um bebé que nasça sem o vírus.

"Os tratamentos que existem permitiram tornar esta doença, anteriormente entendida como fatal, numa doença crónica, dando a estes doentes uma expectativa de vida em muito semelhante à população geral, podendo trabalhar e constituir família como todas as pessoas", explica a médica.

Contudo, e se por um lado a nível terapêutico os avanços atingidos são notórios, por outro lado as mentalidades e preconceitos da sociedade para com os doentes não acompanharam essa evolução: "Infelizmente ainda existe muito estigma e discriminação, fruto de mitos enraizados e desinformação, que continuam a afetar a vida dos doentes que vivem com VIH", acrescenta Mafalda Guimarães.

Saiba mais sobre o VIH e a SIDA na entrevista que se segue:

O que é a SIDA?

SIDA significa Síndrome da Imunodeficiência Adquirida e caracteriza-se por um conjunto de sinais e sintomas causados por uma deficiência do sistema imunitário. Ao contrário de outras imunodeficiências primárias ou congénitas (que nascem com o doente) esta é adquirida no sentido que é causado por um vírus, o VIH - Vírus da Imunodeficiência humana que ataca e destrói o nosso sistema imunitário.

Qual é a diferença entre ter SIDA e ser um portador do VIH ou seropositivo?

Após entrada do vírus no organismo, o doente infetado fica portador do VIH (também chamado seropositivo), e assim pode ficar muitos anos. Posteriormente, se o doente não iniciar tratamento antirretroviral, vai haver uma destruição progressiva do sistema imunitário, que pode durar vários anos e aí entrar na fase final da doença na chamada fase de SIDA. Deste modo ser portador de VIH ou ser seropositivo não significa que tenha doença, que tenha SIDA.

Quais são os sintomas da doença? Quanto tempo após a pessoa ter sido infetada se começa a manifestar o vírus?

Um dos problemas desta epidemia é os doentes permanecerem assintomáticos durante muito tempo e só apresentarem sintomas quando entram numa fase avançada da doença, a chamada fase de SIDA. Contudo numa pequena percentagem de casos, a infeção aguda, ou seja a altura em que o vírus entra no organismo, poderá causar sintomas ligeiros que muitas vezes se confundem com outras infeções virais comuns, como a gripe, podendo dar febre, dores de garganta, dores de cabeça, gânglios aumentados, alterações na pele, entre outras. Estes sintomas geralmente aparecem poucas semanas após o contacto com o vírus. Após esta fase, se não for diagnosticado, entra num período sem sintomas que pode durar muitos anos até começar a haver uma debilitação geral com depressão do sistema imunitário, com perda de peso, diarreias e aparecimento de infeções chamadas de oportunistas porque "se aproveitam” dessa fase. É esta a fase de SIDA em que podem aparecer infeções como tuberculose, toxoplasmose, pneumocistose ou mesmo certo tipo de cancros.

Um portador do VIH pode infetar outras pessoas?

Sim. Tal pode acontecer no caso dos doentes que não estão sob tratamento antirretroviral ou que não o fazem de forma correta permitindo a multiplicação do vírus e consequente transmissão. Os maiores transmissores são aqueles que não sabem que estão infetados e por isso não estão sob tratamento antirretroviral. A única forma de podermos impedir mais transmissões seria diagnosticar todos os doentes infetados e colocá-los em tratamento. Presentemente, doente diagnosticado é sinónimo de doente tratado. Por sua vez um doente tratado fica com quantidade de vírus indetetável e por isso não vai transmitir o vírus a outras pessoas. É o conceito de I=I (indetável=intransmissível).

Quais são as principais formas de transmissão do vírus?

A principal forma de transmissão do vírus é pela via sexual através de relações desprotegidas, sem preservativo. Apesar de existirem outras vias de transmissão como seja através do sangue pela partilha de seringas, esta via é cada vez mais rara, essencialmente devido aos programas de troca de seringas e de substituição de opiáceos. A transmissão mãe-filho pela gravidez ou pelo aleitamento materno também poderá ser uma via de transmissão nos casos das gravidezes de doentes com VIH que não estão sob tratamento antirretroviral. Felizmente, esta situação é rara em Portugal uma vez que o teste do VIH é feito nos três trimestres da gravidez permitindo o início atempado de medicação antirretroviral, caso sejam diagnosticadas com VIH.

Atualmente é possível um casal seropositivo ter um filho sem passar o vírus à criança?

Sim. O risco de transmissão é sempre exclusivamente da mãe para o bebé. Nestes casos podemos ter diferentes cenários: ou temos uma grávida que já sabe que tem VIH e está sob tratamento e que irá mantê-lo durante a gravidez, ou poderemos ter uma grávida cujo diagnóstico é feito durante a gravidez e que irá começar terapêutica imediatamente. Atualmente uma grávida que faça terapêutica antirretroviral com adesão à mesma, não transmite o vírus para o bebé.

Como é feito o diagnóstico da doença?

O diagnóstico é feito através de uma análise de sangue que pode ser pedido pelo médico assistente mas também pode ser feita através de testes rápidos  mediante a picada de um dedo a pedido do próprio em algumas farmácias comunitárias, organizações não governamentais. Trata-se de um teste simples, rápido, anónimo, gratuito e confidencial. Todos devem estar sensibilizados para a sua realização. Tem de ser vista como uma análise de rotina, para permitir diagnósticos precoces. Também já existe o autoteste à venda nas farmácias.

Quais são os tipos de tratamentos que existem?

O tratamento baseia-se na toma de terapêutica antirretroviral, ou seja um conjunto de fármacos que atuam no vírus  em diferentes alvos. Nos últimos anos, têm aparecido vários compridos únicos que combinam em si vários fármacos num só comprimido, permitindo aos doentes tomarem apenas um comprimido por dia. Para a total eficácia do mesmo é necessário uma adesão e uma toma regular e indefinida dos mesmos.

Como se pode prevenir a infeção do VIH?

Sendo o VIH uma infeção de transmissão quase exclusivamente sexual, falamos em comportamento de risco, como sendo qualquer relação desprotegida sem a utilização de preservativo. A prevenção deverá ser incentivar a sua utilização. Outra forma mais lata de prevenção é o conceito de 'treatment as prevention' (tratar para prevenir) ou seja se tratarmos todos os doentes com infeção VIH, eles vão estar virologicamente controlados e como tal não vão transmitir o vírus e assim quebramos a cadeia de transmissão. Mas para tratarmos TODOS os doentes, é necessário que TODOS os doentes infetados estejam diagnosticados e esta é que constitui a grande  barreira para a erradicação desta doença

Qual é o número de doentes em Portugal? E no mundo?

Em Portugal até 31 de dezembro de 2019 foram diagnosticados cerca de 61.433 casos de infeção por VIH, dos quais 22.835 atingiram o estádio de SIDA. A nível mundial estima-se que vivam com VIH cerca de 38 milhões de pessoas, embora no total já se tenham infetado 78 milhões.

Apesar de em Portugal se assistir a uma redução consistente no número de novos casos diagnosticados em cada ano, Portugal continua a ter uma taxa anual de novos diagnósticos das mais elevada da União Europeia.

Nos dias de hoje qual é a expetativa de vida para um doente? É possível ter uma vida dita ‘normal’?

Os tratamentos que existem permitiram tornar esta doença, anteriormente entendida como fatal, numa doença crónica, dando a estes doentes uma expectativa de vida em muito semelhante à população geral, podendo trabalhar e constituir família como todas as pessoas. Infelizmente ainda existe muito estigma e discriminação, fruto de mitos enraizados e desinformação, que continuam a afetar a vida dos doentes que vivem com VIH.

Quais são os avanços que considera que poderão ocorrer nos próximos anos ou décadas relativamente ao tratamento da Infeção VIH?

Muito já tem sido feito em termos de avanços na terapêutica antirretroviral, principalmente se pensarmos que passámos de um período em que apenas tínhamos um fármaco (AZT) para um período em que apareceram muitos fármacos tomados em combinação por vezes com mais de 15 comprimidos por dia, com elevada toxicidade. Atualmente estão disponíveis vários esquemas de comprimidos únicos, muito bem tolerados. A qualquer momento serão introduzidos fármacos administrados por via injetável com administrações mensais que também vão trazer benefícios para muitos doentes. Acima de tudo desejam-se tratamentos simples, eficazes e com a menor toxicidade possível.

Acha que estamos perto da cura?

Já estivemos mais longe. Durante muitos anos acreditava-se que a Hepatite C não tinha cura e atualmente é uma infeção viral curável. O mesmo esperamos para o VIH.  Com um esforço conjunto da comunidade científica internacional, farmacêuticas e organismos políticos poderemos caminhar nesse sentido.

Fonte: NM