Cultura
08 Julho de 2022 | 11h03

Festas do “Reino do Kongo” abrem hoje com a preservação do legado como foco

A 12ª edição das festas da cidade de Mbanza Kongo e do quinto ano desde a elevação a Património da Humanidade começam hoje, no Zaire, com várias actividades culturais e maior atenção nos desafios futuros de preservação do legado e valorização da identidade local, defendeu, quinta-feira, o governador Pedro Makita Júlia.

O dirigente, que fez a abertura oficial das festas da cidade, considerou fundamental a recuperação e maior divulgação e valorização dos patrimónios da província, de forma a os tornar num espaço de referência nacional e depois internacional.

Para tal, continuou, as recomendações sugeridas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) sobre o Centro Histórico de Mbanza Kongo já foram cumpridas, com excepção do aeroporto da província.

O processo de construção do Aeroporto Internacional "Nimi ya Lukeni”, na comuna Nkiende II, a 34 quilómetros de Mbanza Kongo, explicou, decorre sem sobressaltos e termina em 18 meses. "Estamos a terminar o trabalho de desminagem, para garantir as condições de segurança para o arranque efectivo das obras”, adiantou, acrescentando que as demais recomendações, como a remoção das antenas dos órgãos de comunicação, do Centro Histórico de Mbanza Kongo, já foram feitas.

O acto de abertura oficial das festividades, realizado no Museu dos Reis do Kongo, contou com a presença do coordenador das autoridades tradicionais do Kongo, Afonso Mendes, para quem esta edição deve servir de pilar para os africanos cimentarem a paz no continente.

 

Actividades

Para celebrar a data, é realizado hoje, em Mbanza Kongo, um espectáculo músico-cultural, no qual é homenageado, a título póstumo, o músico António Muanda "Madiata”, uma feira de produção, com diversos produtos da região, a exposição fotográfica "Reino do Kongo Património e Memória” e uma gala para distinguir todos que contribuíram ao desenvolvimento da província.

As actividades, a serem realizadas pela Administração Municipal de Mbanza Kongo, incluem, ainda, a realização de uma feira de saúde, o seminário "Mbanza Kongo, ontem, hoje e amanhã”, e a exibição de um documentário sobre a trajectória feita até o reconhecimento da cidade pela Unesco.

O Governo do Zaire decretou tolerância de ponto hoje, para melhor celebração da efeméride.

 

Estado actual

O chefe do Gabinete Técnico do Comité de Gestão Participativa do Centro Histórico de Mbanza Kongo, Biluka Nsenga, afirmou, ontem, que o Executivo está a cumprir com as recomendações da Unesco, no quadro da manutenção do estatuto de Património Mundial da Humanidade.

"O surgimento da pandemia atrasou o cumprimento das recomendações. Mas agora os passos estão a ser dados para a rápida execução e o retorno das escavações ”, disse.

Em relação às condições para Mbanza Kongo ser um local de atracção turística, Biluka Nsenga acredita que no momento em que a região foi reconhecida pela Unesco teve visibilidade mundial.

As políticas de atracção de turistas, frisou, dependem do empenho de todos, em especial por Mbanza Kongo ser o único Património Mundial da Humanidade do país.

Biluka Nsenga informou, ainda, que o Centro histórico tem realizado actividades para maior divulgação do acervo da cidade, enquanto aguarda pela construção de um museu especializado. "Os vestígios descobertos em Mbanza Kongo têm sido apresentados ao público, um acto que já foi realizado, também, em Luanda e Benguela”, acrescentou.

O futuro museu, revelou, é parte de um projecto a ser feito por Angola, mas com o envolvimento dos dois Congos e do Gabão, países que eram parte do antigo Reino do Kongo. "Temos que os contactar para colocarem à disposição algumas peças para o acervo do futuro museu, assim como vamos conversar com alguns museus detentores de peças do Reino do Kongo para a devolução”, frisou.

 

A capital dos reis

A histórica cidade de Mbanza Kongo, antiga capital política e administrativa do Reino do Kongo, uma das regiões mais celebres a Sul do Sahara, foi fundada em 1506 pelo então Rei Nimi ya Lukeni.

A celebrar hoje, 516 anos de existência e cinco anos desde a elevação a Património Mundial da Humanidade, Mbanza Kongo tem um acervo cultural bastante diversificado, onde se destacam as ruínas do Kulumbimbi, o Tady dya Bukikwa, as 12 fontes de água, o Nsungilu, o Cemitério dos Reis e a mística árvore Yala Nkuwo.

  Consórcio norte-americano apoia património local

O presidente do Consórcio Quanten Angola - LLC, Thomas Segun, disse, ontem, em Mbanza Kongo, Zaire, que a empresa vai apoiar o processo de valorização e preservação do Centro Histórico da cidade, considerado Património Mundial da Humanidade.

O empresário, que está a visitar a cidade de Mbanza Kongo, pretende saber, junto do Governo Provincial, quais as áreas em que podem investir para a valorização e preservação do Património local, apesar do principal investimento da empresa, a construção de uma refinaria, estar a ser feito no Soyo.

O consórcio, explicou, tem um pacote de projectos pré-concebidos para a província do Zaire, no qual despontam a melhoria de estradas, apoio às empresas locais, a construção de um hospital especializado no tratamento do cancro e doenças cardíacas, a criação de uma banda larga de Internet e concepção de bolsas de estudo para os EUA aos jovens.

Entre os projectos consta, ainda, a construção de um hotel em Mbanza Kongo. "A intenção é apoiar o sector do turismo, com o apoio do Governo local”, esclareceu.

O governador Pedro Makita Júlia espera que as iniciativas não se limitem apenas ao Soyo e Mbanza Kongo e sejam estendidas também aos municípios do Nzeto, Tomboco, Nóqui e Kuimba.

  Homenagem em reconhecimento pelos feitos

O músico Madiata foi homenageado, ontem, a título póstumo, pela Nguxi dos Santos Produções, com a inauguração de uma sala multiuso, no Museu dos Reis do Kongo. A par da sala, denominada "Madiata”, foi, igualmente, publicado um álbum, com sete faixas, e um DVD sobre a vida e obra do cantor.

Exímio tocador de lungoyi ngoyi, Madiata, que cantava no estilo mandanda, passa a ser um dos nomes em destaque do folclore musical no Zaire.

Afonso Mendes Diansongi, filho do homenageado, disse estar satisfeito com a homenagem ao pai, o único artista da região a tocar lungoyi ngoyi. "Hoje um dos sonhos dele aconteceu, o de ter uma das músicas gravadas”, contou.

Para o cantor e tocador de kissange, Nzenga Mambu, a homenagem é uma forma de valorizar os músicos da região. "É bom ver o reconhecimento de quem contribuiu muito para a cultura e as artes”.

Fonte: JA