Saúde
23 Maio de 2022 | 09h40

“Mais de duas mil mulheres já foram operadas no país”

A fístula obstétrica é uma lesão grave entre a bexiga e a vagina ou entre o recto e a vagina, provocada por um parto demorado, obstruído e sem assistência médica, o que provoca perda descontrolada da urina (incontinência urinária), o que faz com que muitas mulheres libertem mau cheiro, o que lhes impossibilita de ter uma vida social, sendo, geralmente, abandonadas pelo esposo e pela família

Pelos menos 2.500 mulheres que sofriam de fístulas obstétricas já foram operadas por médicos afecto à Maternidade Lucrécia Paim, por meio de uma campanha que tem sido levada a cabo desde 2018, em todo o país, pela instituição sanitária.  

A directora geral da Maternidade Lucrécia Paim, Manuela Mendes, em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, disse que o número de mulheres com problemas de fístulas obstétricas no país é elevado. Acrescentou que, só em Luanda, todos os dias são operadas duas mulheres, que já vivem com este problema há anos.    

Segundo Manuela Mendes, para responder à demanda, foi aberto um bloco operatório especificamente para atender mulheres com fistulas obstétricas."Anteriormente, devido às urgências das gestantes no bloco da Maternidade, as mulheres com fistulas eram postas em segundo plano e os números continuavam a crescer". 

A especialista em ginecologia e obstetrícia explicou que, no âmbito das comemorações do Dia Internacional do Fim da Fístula Obstétrica, um grupo de médicos da Maternidade Lucrécia Paim vai, novamente, à província do Bié, para operar cerca de 150 mulheres. 

De acordo com Manuela Mendes, a campanha de operação à fistula obstétrica, que decorre de 23 a 31 do corrente mês, vai contar com a participação de três médicos estrangeiros, sendo dois norte americanos e um irlandês, que são referências a nível internacional, no que toca à operação de fístulas com maior complexidade.      

Manuela Mendes deu a conhecer que a Maternidade Lucrécia Paim, até ao momento, é a única unidade sanitária pública do país a fazer operações à fístulas obstétricas, situação que não permite atender todas as mulheres com este problema. 

"Pretendemos abrir uma escola para a formação de médicos e cirurgiões especialistas em fístulas obstétricas e, para tal, precisamos de mais financiamento e outros suportes", realçou a médica.  

Segundo a responsável da Maternidade Lucrécia Paim, para que o projecto da escola comece, contam com o apoio da Federação de Ginecologia e Obstetrícia Internacional  (FIGO), que está interessada em ajudar Angola na formação de gineco-obstetras, habilitados para operar fistulas simples ou complexas. 

  Manuela Mendes fez saber que, devido à exiguidade de especialistas para operar fistulas obstétricas, a Maternidade Lucrécia Piam tem estado a organizar, desde 2018, uma campanha de pendor voluntário, em que um grupo de médicos da instituição vai ao encontro das vítimas, tendo já operado várias mulheres nas províncias de Uíge, Huíla, Huambo, Bié e Bengo.  

De acordo com Manuela Mendes, a Primeira Dama da República, Ana Dias Lourenço,  abraçou a causa e tem estado a prestar todo o apoio possível, como  madrinha da campanha, para permitir que mais mulheres possam estar livres da fistula obstétrica. 


Definição da doença e consequências

A fístula obstétrica é uma lesão grave entre a bexiga e a vagina ou entre o recto e a vagina, provocada por um parto demorado, obstruído e sem assistência médica, o que provoca perda descontrolada da urina (incontinência urinária). 

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de dois milhões de mulheres na África Subsaariana, Ásia, região árabe e América Latina sofrem da doença, com a ocorrência de 75.000 novos casos por ano. É considerada uma doença da pobreza, com pouca incidência no mundo desenvolvido. 

A directora geral da Maternidade Lucrécia Paim explicou que a perda descontrolada da urina faz com que as mulheres libertem mau cheiro, o que lhes impossibilita de ter uma vida social, sendo, geralmente, abandonadas pelo esposo e pela família de forma geral. 

"Isso cria um isolamento social e a própria mulher passa a ter vergonha de se aproximar das pessoas. É uma situação muito constrangedora para as mulheres. Quando elas encontram alguém que lhes informa e orienta, a ponto de serem operadas, a vida delas volta ao normal e conseguem recuperar a família", disse a médica obstetra. 

 

Prevenção 

Segundo a especialista em obstetrícia, a prevenção é a grande armada para se acabar com as fístulas. E, uma das formas de se prevenir, prosseguiu, é evitar a gravidez precoce, porque as fístulas obstétricas surgem mais em mulheres muito jovens. 

Manuela Mendes explicou que outra forma de se prevenir é optar por um parto assistido, para que, caso surja alguma complicação, tudo possa ser resolvido com segurança, sem causar danos às parturientes. 

A médica disse que outra grande forma de prevenção é criar casas de espera de parto, próximas aos hospitais, e colocar lá as mulheres que tenha algum risco de desenvolverem fistulas obstétricas.  

 


CUANZA-NORTE

Maior parte da população desconhece a doença



Grande parte da população da província do Cuanza-Norte desconhece ou pelo menos nunca ouviu falar sobre fístula obstétrica.

De acordo com o médico de ginecologia e obstetrícia, Gilberto Canda, que falava, sexta-feira, em Ndalatando, em alusão ao Dia Internacional do Fim da Fístula Obstétrica, que hoje se assinala, a falta de mais divulgação sobre a patologia e desinteresse das pacientes são factores que concorrem para o seu agravamento. 

O também director clínico do Hospital Materno Infantil de Ndalatando disse que, na unidade hospitalar que dirige, desde Janeiro, não foram notificados casos desta enfermidade, mas referiu que, no ano passado, registaram-se dez ocorrências, tendo sido as pacientes devidamente acompanhadas, operadas e curadas.

Acrescentou que, no Cuanza-Norte, os poucos casos registados ocorreram, com maior relevância, em comunidades rurais, onde o atendimento médico é precário.

"Esta patologia acontece geralmente em parturientes que não cumprem com as consultas pré-natais em tempo oportuno e/ou furtam-se dos conselhos e palestras”.  

Gilberto Canda informou que a maternidade provincial tem um especialista de nacionalidade cubana que normalmente trata essas situações e aconselha as pacientes para o procurarem, o mais cedo possível.

Margarida Simão, de 32 anos, que padecia desta patologia foi operada no ano passado, conta que sentia-se excluída, por conta do seu estado de saúde. Segundo ela, só depois de ter sido operada passou a sentir-se mais valorizada pelos amigos e familiares, até mesmo pelo marido.

"Só dava vontade de ficar em casa e totalmente isolada, por estar sempre molhada. Usa-va fraldas e trocava-se dezenas de vezes durante o dia. A mu-lher com fístula é muito frequentemente abandonada pelo marido e afastada da sociedade, devido ao cheiro desagradável”, concluiu. 

André Brandão | Ndalatando


LUANDA

MASFAMU doa material cirúrgico 


O Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mu-lher entregou, sexta-feira, à Maternidade Lucrécia Paim, em Luanda, diverso material para apoiar a campanha que visa operar cerca de 150 mu-lheres da província do Bié com fístula obstétrica.  

A directora da Maternidade Lucrécia Paim, Manuela Mendes, disse que a campanha está inserida nas comemorações do Dia Internacional do Fim da Fístula Obstétrica, que hoje se assinala.  

"Esta oferta vem em bom momento, já que vamos, no dia 23 do corrente mês, fazer uma campanha, na província do Bié, para acudir mulheres que padecem desta doença", informou, apelando às mulheres com fístula obstétrica no sentido de fazerem consultas.

Por sua vez, Joana Cortês, chefe do Departamento de Igualdade e Equidade no Gé-nero do Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher, disse que a oferta resulta de uma campanha de angariação.

"Trabalhamos com o Fundo das Nações Unidas para as Populações  (FUNUAP) e demais parceiros, que se sensibilizaram com esta doença, que afecta muitas mulheres no nosso país", acrescentou.

Fez saber, ainda, que a referida campanha vai ter continuidade, pois o objectivo é ajudar o maior número de mulheres com fístula obstétrica em Angola.

Pedro Bica


HUAMBO

Mulheres aconselhadas  a procurar ajuda médica 


O médico e especialista em ginecologia e obstetrícia Filipe Gaspar Ndumbo aconselha as mulheres com fístula obstétrica a procurarem ajuda médica, para se evitar complicações.

Filipe Gaspar Ndumbo, que falava à nossa reportagem em alusão ao Dia Internacional do Fim da Fístula Obstétrica, disse que 106 mulheres da província do Huambo já foram operadas, no âmbito de uma campanha realizada em Abril do ano em curso, pela direcção do  Hospital Geral, com o apoio de um equipa médica proveniente da capital do país.

 Lembrou que o tratamento é grátis e que as pacientes devem se fazer acompanhar de um doador de sangue.  

O banco de urgência da maior unidade hospitalar da província do Huambo, acrescentou, atende, por dia, mais de 50 casos de mulheres com fístula obstétrica.  

Fonte: JA